Repertório é a chave, mas não é cartão de embarque. Entendendo a diferença entre repertório e capital cultural.
- Luiza Venerando | @luizavenerando_

- 17 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de ago.

Há tempos eu vinha pensando em falar sobre o custo da criatividade. Não só em termos materiais, mas também em termos de acesso, oportunidades e vivências que moldam nosso olhar e nossa sensibilidade.
Foi então que, assistindo a um vídeo da pesquisadora Carol Ferraz, da USP, as ideias se alinharam. Ela trouxe à tona a distinção entre repertório e capital cultural que me fez refletir sobre como construímos nosso conhecimento e nossas conexões.
A partir disso, decidi explorar um pouco mais esse tema, entendendo as nuances entre o que é acumular referências e o que é, de fato, ter o capital cultural que nos posiciona em determinados espaços.
Então: não, assistir vídeos dos perfis viralizados do TikTok dedicados a criar capital não te dá capital cultural de fato. É uma ilusão que vende!
Vivemos uma era em que consumir conteúdo parece sinônimo de ascensão social. É fácil achar que ler um livro ou seguir um influenciador "cult" automaticamente nos insere em todos os círculos. Mas isso é repertório, não capital cultural. E, às vezes, nem isso…
O repertório é o que você acumula: livros, filmes, experiências, conversas, visões de mundo. Já o capital cultural é o que te posiciona nos lugares certos: escolas específicas, padrões de fala, contatos, “permissões simbólicas” para estar ali. Como explica Carol Ferraz, capital cultural se herda, vem da família, do ambiente social, da estrutura que te forma antes mesmo de você tentar entrar nesses lugares.
O repertório constrói pontes, mas não entrega as chaves. Ele é fundamental para dialogar com diferentes pessoas e contextos. Ele permite que, quando uma porta se abra, você saiba como atravessá-la. Se um dia você tiver a chance de se conectar com alguém importante, o repertório garante que essa conversa seja significativa. Sem isso, mesmo a melhor das oportunidades pode ser desperdiçada.
Nos últimos tempos, uma parte dos ricos emergentes tem reforçado a ideia de que estudar é bobagem, que a universidade é desnecessária, que o “mundo real” ensina mais. Esse discurso não é ingênuo.
Ele esconde um incômodo: dinheiro não compra capital cultural. E é justamente por não conseguirem acesso a todos os espaços — apesar da grana — que preferem deslegitimar a importância do estudo e do repertório. Se não dá pra entrar, melhor dizer que esse lugar nem vale tanto assim.
Não ter capital cultural não diminui sua cultura e é aqui que entra a antropologia: antigamente, antropólogos precisavam estar em determinado lugar para compreender uma cultura e repassar essas informações. Hoje, com um repertório bem construído, podemos falar sobre nossa própria cultura a partir das nossas vivências, sem a necessidade de um intermediário. Isso fortalece a autenticidade do discurso e cria pontes genuínas entre diferentes realidades culturais.
Onde entra a criatividade?
Construir repertório exige tempo, espaço e recursos que não são distribuídos igualmente. Conhecer é a base para criar, ou seja, criatividade custa caro.
No Brasil de modo geral, felizmente, há iniciativas gratuitas: museus, bibliotecas, arte de rua, rodas culturais. Tudo isso conta. Cada visita, cada experiência, é uma forma de expandir nossa criatividade, mesmo que nem sempre isso nos garanta o capital cultural das elites. Mas ainda assim, nem todos têm tempo ou energia sobrando pra consumir cultura depois de um dia exaustivo de sobrevivência.
Para quem não herdou capital cultural, construir repertório é uma forma de resistência, de ampliação de consciência e de transformação pessoal. Estudar, buscar referências, mergulhar em diversas culturas e experiências não é apenas um ato de enriquecimento pessoal, mas também uma maneira de desafiar as barreiras impostas por uma sociedade que, muitas vezes, tenta limitar quem pode ou não ocupar determinados espaços.



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